Os Setores Abrangidos pelo CBAM: Cimento, Aço, Alumínio, Fertilizantes e Hidrogênio
- Guilherme Haygert

- 13 de mar.
- 4 min de leitura
Introdução
O Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM) da União Europeia
abrange setores industriais estratégicos caracterizados por elevada intensidade de
emissões de gases de efeito estufa e significativa exposição ao risco de fuga de
carbono. A seleção desses setores reflete tanto sua presença no Sistema de
Comércio de Licenças de Emissão da UE (EU ETS) quanto sua vulnerabilidade à
concorrência de produtores localizados em jurisdições com menor ambição
climática.
Compreender as especificidades de cada setor abrangido é importante
para operadores e importadores que precisam estruturar seus sistemas de
monitoramento e comunicação de informações em conformidade com os requisitos
do regulamento.

Setor do cimento
O setor do cimento está entre os mais intensivos em emissões de carbono na
economia global, respondendo por aproximadamente 8% das emissões globais de
CO2. No âmbito do CBAM, são abrangidas mercadorias como clínquer, cimento
Portland, cimentos aluminosos e outros cimentos hidráulicos. O processo produtivo
do cimento envolve emissões significativas tanto da combustão de combustíveis nos
fornos de clínquer quanto das reações químicas de calcinação do calcário, que
liberam CO2 como subproduto inevitável. O clínquer constitui o principal precursor
para os cimentos, e suas emissões incorporadas devem ser consideradas no
cálculo das emissões dos produtos finais. Entre os parâmetros adicionais de
comunicação exigidos estão o teor total de clínquer nos cimentos produzidos.
Setor do ferro e aço
O setor siderúrgico apresenta a maior diversidade de mercadorias e vias de
produção entre os setores CBAM. São abrangidos desde produtos semiacabados
como ferro-gusa, ferro esponja (DRI), ferroligas e aço bruto, até produtos acabados
como barras, perfis, chapas e fios de ferro ou aço. As vias de produção incluem a
rota tradicional de alto-forno com conversor a oxigênio (BF-BOF), que utiliza coque
como redutor, e a rota de forno elétrico a arco (EAF), que pode utilizar sucata ou
ferro esponja como matéria-prima principal. A intensidade de emissões varia
significativamente conforme a rota tecnológica: enquanto a rota BF-BOF é altamente
intensiva em carbono devido ao uso de carvão, a rota EAF alimentada por sucata e
eletricidade renovável pode apresentar emissões substancialmente menores. Para o
Brasil, grande exportador de aço semiacabado, o monitoramento preciso dessas
diferentes vias é vital.
Setor do alumínio
O setor do alumínio abrange desde o alumínio primário bruto até produtos
semiacabados como barras, perfis, chapas e folhas. O processo de produção de
alumínio primário é intensivo em eletricidade devido ao processo de eletrólise
(processo Hall-Héroult) utilizado para reduzir a alumina em alumínio metálico. Além
das emissões indiretas significativas associadas ao consumo de eletricidade, o
processo gera emissões diretas de CO2 provenientes do consumo dos anodos de
carbono, bem como emissões de perfluorocarbonetos (PFCs) durante os chamados
efeitos anódicos. Para a medição das emissões de PFCs, a norma exige a aplicação
de um método específico baseado em medições da sobretensão. A alumina
constitui o principal precursor do alumínio primário, e suas emissões incorporadas
devem ser consideradas no cálculo do produto final.
Setor dos fertilizantes
O setor de fertilizantes abrange produtos nitrogenados como amônia, ácido nítrico,
ureia, nitrato de amônio e diversos fertilizantes mistos contendo nitrogênio, fósforo e
potássio em diferentes combinações. A produção de amônia, principal precursor do
setor, é altamente intensiva em emissões devido ao uso predominante de gás
natural no processo de reforma a vapor (steam methane reforming). Já a produção
de ácido nítrico gera emissões significativas de óxido nitroso (N2O), um gás de
efeito estufa com potencial de aquecimento global cerca de 265 vezes superior ao
do CO2. Para as emissões de N2O provenientes da produção de ácido nítrico, o
regulamento exige obrigatoriamente o uso do método baseado na medição. Entre os
parâmetros adicionais de comunicação estão os teores das diferentes formas de
nitrogênio nos fertilizantes mistos.
Setor do hidrogênio
O hidrogênio foi incluído no CBAM em reconhecimento de seu papel crescente na
transição energética e na descarbonização de processos industriais. Atualmente, a
maior parte do hidrogênio produzido mundialmente é obtida por reforma a vapor de
gás natural, processo que gera emissões significativas de CO2 (o chamado
hidrogênio cinza). No entanto, existem vias de produção com diferentes itens
idades de emissões, incluindo a eletrólise da água alimentada por eletricidade
renovável (hidrogênio verde), a reforma com captura e armazenamento de carbono
(hidrogênio azul) e a gaseificação de biomassa. A inclusão do hidrogênio no CBAM
cria incentivos para que produtores invistam em rotas de produção de baixo
carbono, já que produtos com menor intensidade de emissões terão menor
obrigação de certificados CBAM.
Considerações finais
A diversidade de setores e produtos abrangidos pelo CBAM reflete a complexidade
da indústria de base e a necessidade de abordagens específicas de monitoramento
para cada cadeia produtiva. Para empresas brasileiras exportadoras, especialmente
nos setores de aço, alumínio e fertilizantes, a compreensão detalhada das regras
aplicáveis a cada categoria de mercadoria é fundamental para garantir
conformidade e identificar oportunidades de diferenciação competitiva. A tendência
de expansão do escopo do CBAM para incluir produtos a jusante adiciona urgência
à necessidade de preparação, sinalizando que cada vez mais segmentos da
indústria serão afetados nos próximos anos.



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