Materialidade na IFRS S1: O Coração das Divulgações de Sustentabilidade
- Guilherme Haygert

- 9 de jan.
- 3 min de leitura
Série: Entendendo as Normas IFRS de Sustentabilidade
Introdução
No universo das divulgações de sustentabilidade, poucos conceitos são tão centrais
quanto o de materialidade. A IFRS S1 – Requisitos Gerais para Divulgação de
Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade dedica atenção especial
a este fundamento conceitual, estabelecendo critérios claros para que as
organizações determinem quais informações são verdadeiramente relevantes para
os usuários de seus relatórios. Compreender a materialidade sob a ótica da IFRS
S1 é importante para qualquer organização que busque preparar divulgações de
sustentabilidade que sejam, ao mesmo tempo, úteis para investidores e alinhadas
às melhores práticas internacionais.

O conceito de materialidade na IFRS S1
A IFRS S1 define que as informações são materiais quando sua omissão, distorção
ou obscurecimento puder razoavelmente influenciar as decisões dos principais
usuários de relatórios financeiros para fins gerais. Esses relatórios incluem tanto as
demonstrações financeiras quanto as divulgações financeiras relacionadas à
sustentabilidade, fornecendo informações sobre uma entidade específica. A norma
também estabelece que a entidade deve divulgar informações materiais sobre riscos
e oportunidades relacionados à sustentabilidade que possam razoavelmente afetar
suas perspectivas, conectando diretamente a materialidade ao impacto nos fluxos
de caixa, acesso a financiamento e custo de capital.
É importante destacar que a materialidade, conforme conceituada pela norma, é um
aspecto de relevância específico da entidade. Isso significa que não existem limites
quantitativos predeterminados ou situações automaticamente classificadas como
materiais. Cada organização deve exercer julgamento considerando seus contextos
particulares, avaliando tanto fatores quantitativos quanto qualitativos, como a
magnitude e a natureza dos efeitos dos riscos e oportunidades identificados.
A identificação de informações materiais
O Apêndice B da IFRS S1, em seus parágrafos B19 a B28, oferece orientação
detalhada sobre como identificar informações materiais. O ponto de partida deve ser
os requisitos da Norma IFRS de Divulgação de Sustentabilidade aplicável ao risco
ou oportunidade específicos. Na ausência de norma específica, a entidade deve
consultar as fontes de orientação previstas na norma, que incluem as Normas SASB
e outros pronunciamentos de órgãos normativos reconhecidos.
Um aspecto particularmente relevante trata das informações sobre eventos futuros
com resultados incertos. A norma determina que, ao julgar a materialidade dessas
informações, a entidade deve considerar os potenciais efeitos dos eventos sobre
valor, momento e incerteza dos fluxos de caixa futuros, bem como a série de
resultados possíveis e sua probabilidade. A norma reconhece explicitamente que
resultados de baixa probabilidade e alto impacto podem ser materiais,
especialmente quando considerados em conjunto com outros riscos similares.
Características qualitativas fundamentais
Além da materialidade, a IFRS S1 estabelece que as informações financeiras
relacionadas à sustentabilidade devem ser relevantes e representar fielmente o que
pretendem representar. A relevância conecta-se à capacidade da informação de
fazer diferença nas decisões dos usuários, possuindo valor preditivo, confirmatório
ou ambos. Já a representação fiel exige que as descrições sejam completas,
neutras e precisas, maximizando essas qualidades na medida do possível.
A norma também identifica características qualitativas que melhoram a utilidade das
informações: comparabilidade, verificabilidade, tempestividade e
compreensibilidade. Essas características atuam de forma complementar às
fundamentais, garantindo que as divulgações não apenas sejam materiais e
fidedignas, mas também úteis na prática para os usuários que as analisarão.
Evitando o obscurecimento de informações
Um ponto principal da orientação de aplicação da IFRS S1 refere-se ao
obscurecimento de informações materiais. São enumeradas circunstâncias que
podem resultar nesse problema, incluindo situações em que informações materiais
não são claramente diferenciadas de informações adicionais não materiais, quando
a redação utilizada é vaga ou pouco clara, quando informações sobre um mesmo
risco estão dispersas pelo relatório, ou quando informações diferentes são
agregadas inadequadamente. A organização deve identificar claramente suas
divulgações e diferenciá-las de outras informações, garantindo que a substância não
se perca em meio à forma.
Considerações finais
A determinação de materialidade sob a IFRS S1 representa um exercício sofisticado
de julgamento profissional. As organizações devem desenvolver processos robustos
para identificar, avaliar e comunicar informações materiais, sempre com foco nas
necessidades informacionais dos investidores e outros usuários primários dos
relatórios. Para empresas brasileiras que se preparam para a obrigatoriedade das
normas ISSB a partir de 2026, compreender profundamente o conceito de
materialidade é o primeiro passo para construir divulgações de sustentabilidade que
agreguem valor real ao processo decisório dos stakeholders e posicionem a
organização de forma competitiva no mercado global.



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